Ontem fui com a Joana ao Teatro do Campo Alegre ver o filme/documentário Natureza Morta da Susana de Sousa Dias, recomendado por outra Joana.
Um documento a preto e branco que aliado ao som resulta na criação de um registo frio e tenebroso dos 48 anos da ditadura Salazarista.
A transposição do fantasma ditatorial é feita em rigor para o ecrã e a atmosfera torna-se mais fria dentro da sala ao visionar as imagens de um passado negro. Será um documentário de terror? Sem qualquer dúvida que sim. Mas bem real.
A realizadora recorre a imagens de arquivo da ditadura para construir a sua obra. Apesar da forma abstracta da concepção deste documentário, as imagens não o são. São pessoas reais de um período real. O facto de não existirem diálogos narrativos confere um estado de constante procura de diálogos dentro do espectador. Mas as monstruosidades dos actos fascistas não têm palavras.
Natureza Morta evolui: a partir da chegada ao poder de Salazar ao fanatismo popular em torno do ditador; olhando para a Guerra Colonial e as suas consequências (ficou-me na memória os soldados portugueses munidos de napalm a queimarem as plantações das populações locais para os matarem à fome); não deixando de lado a passividade dos países estrangeiros (EUA ou o Reino Unido, os países da liberdade…) que fizeram por ignorar a situação nacional; passando pelo apoio incondicional da Igreja ao regime (passagens e referências mordazes e verdadeiras sobre a Senhora de Fátima e o poder da ICAR sobre o Povo reconhecidas ao olhar particular de cada espectador); até a forma como a alta sociedade que pactuava com o estado das coisas; termina finalmente com a Revolução dos Cravos. O filme é intenso e quando no final chegam algumas imagens explícitas das atrocidades da guerra, estas não chocam, apenas são consequências de um regime doentio. O filme não foca apenas um ditador e o seu regime, é composto por pessoas, rostos de pessoas que vão sendo desfiladas ao longo do documentário. Vítimas da opressão (alguns ficaram uma vida na cadeia devido às suas convicções politicas), servem de pausa reflectiva. Do seu púlpito, Salazar controla as massas e os seus exércitos. Declaradamente pela força, declaradamente com a Igreja pela subversão do Povo. A montagem e edição das imagens em câmara lenta são fulcrais para recriar o opressor sempre que ele aparece no ecrã. As sequências são tão soberbas como assustadoras. Para se existir no presente é preciso entender o passado.
Natureza Morta traz para o nosso quotidiano a lembrança de uma época negra da história portuguesa. A liberdade prolifera nos nossos dias e é dada como adquirida, mas muitas pessoas sofreram para que esta pudesse voltar a existir desde 25 Abril de 1974. Este documentário é também um tributo a essas pessoas.
Para que a memória não se apague, este documentário deve ser difundido e visto por todos.

