Apesar do tipo de futebol do FC Porto de 2002 a 2004 nunca me ter entusiasmado como amante do desporto, sou o primeiro a reconhecer que o José Mourinho teve aqui um grande mérito e provou ser um treinador acima da média. E sim, festejei a vitória na taça UEFA e mais tarde na Liga dos Campeões. E não, não foi apenas por namorar naquela altura com uma portista ferrenha.
Num mundo do futebol cada vez mais medido a euros é de admirar quando os mais vulneráveis, os mais pequenos comparados com os gigantes da Europa conseguem fazer qualquer coisa. Mas aquele FC Porto não fez apenas qualquer coisa. Quem não se lembra do 4-0 à Lazio ou do 3-2 com o Celtic ou do 1-0 ao Man United ou do 3-0 com o Mónaco. Quem não se lembra do número 10, que finta com os dois pés, é melhor que o Pelé, é o Deco Allez Allez ou do Dimitri, Dimitri, Dimitri ou de um meio campo de sonho composto por jogadores quase desconhecidos. O Mourinho teve mérito em construir uma equipa de tostões, de jogadores desconhecidos, dispensados e transformá-la numa equipa que ganhou tudo frente aos maiores.
Mas desde logo mostrou o seu caracter. Escolheu sair pela porta mais pequena do Dragão. Com uma patética estória envolvendo os Super Dragões e a namorada de um deles, que não se chegou a saber se a tinha comido ou não (o que é uma pena, porque acho que a miúda é bem boa).
Mas foi para o Chelsea ganhar uns milhões onde ainda conseguiu descer mais. Levou consigo quase todos os jogadores do FC Porto que quis. Quase todos porque o melhor deles, o Deco, mostrou que há coisas que valem mais que o dinheiro.
Uma das primeiras medidas foi despedir o Adrian Mutu, por ele ter sido apanhado com cocaína. Segundo o Mourinho para servir de exemplo às camadas jovens do Chelsea. Mas algum tempo depois teve nova atitude exemplar (não se sabe se os putos do Chelsea aprenderam alguma coisa mas aulas não faltaram), o Chelsea do Mourinho encontrou o Barça do Rijkaard na Liga dos Campeões durante dois anos seguidos. E aqui superou-se. O Mourinho sabia perfeitamente que não tinha (nem tem) futebol para aquela equipa, nos quatro jogos o Barça deu em todos eles um banho de bom futebol e portanto Mourinho teve de recorrer a outras tácticas, tal e qual um miúdo birrento que amuou por não lhe darem a atenção que ele queria e por saber que o brinquedo do outro é melhor. Mas estes jogos tiveram mais. Mostraram dois tipos de treinador, dois tipos de futebol, dois tipos de homem, dois tipos de caracter, dois tipos de ganhadores. O Barça e o Rijkaard ensinaram a Mourinho uma lição.
Ganhar? Sempre. De qualquer maneira? Nunca.
Numa sociedade portuguesa sem referências mediáticas, o povo tem de se socorrer do Figo ou do Mourinho. O Figo com 18 anos começou a mostrar o seu caracter ao assinar contratos com o Benfica e o Sporting ao mesmo tempo. Antes de ir para o Barça, assinou dois contratos com o Parma e a Juventus ficando proibido jogar em Itália durante alguns anos. Chegou ao Barça, que fez dele um excelente jogador. Oferecendo-lhe tudo até a mítica braçadeira de capitão a par com Pep Guardiola, mas cagando em todos os que confiaram nele, assinou pelos fascistas do Real Madrid. Onde foi morrer aos poucos para o futebol. Mostrou o amor a Portugal quando foi receber o título de melhor jogador do mundo falando em… castelhano. Saiu da Selecção Nacional após o Euro 2004 à qual voltou um ano depois porque o seu amigo Florentino Perez lhe deu um chuto no cu e ele precisava de arranjar clube. É este um dos grandes símbolos nacionais juntamente com o Eusébio e a Amália.
Um país com referências como Maria João Pires, António Vitorino d’Almeida, Vieira da Silva, Siza Vieira, Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Álvaro Cunhal não precisa de Figos ou Mourinhos.
Para não me chamarem tinhoso ou rancoroso, ambos passaram pelo Barça, que também não lhes conseguiu ensinar a serem melhores pessoas mas se calhar foram eles que não perceberam o verdadeiro significado de “mès que un club”.